O poeta Manoel de Barros e o vinho, que tira sua timidez!

A edição deste mês da Revista da Cultura, exemplar gratuito publicado pela Livraria Cultura, está impecável.

2012-12-13 22.29.46
Tem uma imperdível entrevista com o poeta Manoel de Barros, que completará 96 anos, dia 19 de dezembro.
Reproduzo aqui alguns trechos:

RC: Com os 96 anos que se completam este mês, o viver muito e lúcido é uma dádiva ou em alguma circunstância chega a ser um tormento?
MB: Não tenho explicações para os 96. Se a gente faz só o que gosta, ajuda.  Mas isso é “um privilégio”.  Só faço inutilezas.

RC: É possível, afinal de contas, definir o que é poesia?
MB: É o mel da palavra.

RC: A sua fama de ser recluso é, de alguma maneira, aversão ao “estrelato”?
MB: Sou tímido. Só isso. Um gole de vinho me tira a timidez.

RC: Você acredita que o mistério nos completa? Quem é Deus, pelo menos para poesia?
MB: Deus é o verbo. O que faz. O que abastece o meu mistério.

RC: E o que é ser poeta?
MB: Fôssemos talvez merecidos de água, de rãs, de árvores, de pedras, de brisa, de garças.
A gente dementava as palavras – porque sempre tínhamos visões. Hoje eu vi um lagarto lamber as pernas
da manhã. Tínhamos desapetite para copiar. Gostávamos de transver a natureza. A gente não gostava de informar, mas só cantar.
As palavras não tinham comportamento. Nossa palavra era a raiz – vinha de nossas raízes. E moravam na infância sem comportamento.
Quem nasce poeta tem que se conformar que é meio parvo, meio tonto e meio cego.
Sempre usávamos visões como esta. Eu vi um prego primaveril! Temos de estudar ignoranças para saber o formato do silêncio e a cor dos arrebóis.
A infância sendo a raiz de nossas palavras, tem que trazer a inocência com ela. E a palavra inocente há de vir enrolada em seus caracóis.
Então, o poeta poderá cometer todos os erros de linguagem, porque está amparado na liberdade de ser ainda raiz.
Temos que desver a natureza para inventar outra.
Assim: hoje eu vi uma garça com olhar de oceano.
Por tudo isso e por isso que o poeta tem que se conformar que é um tonto ou um parvo!
Por fim: o que forma a imagem poética não é o VER, mas o TRANSVER.

2012-12-13 22.30.20

Para saber mais sobre Manoel de Barros, clique aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s