D.H. Lawrence, o vinho e seu romance mais famoso

wine

“Apesar de nosso dia pálido estar afundando em escuridão, quando tomamos vinho  nossos sonhos renascem e vencem a noite iminente.”       D. H. Lawrence

O escritor D. H. Lawrence nasceu em Nottingham em  11 de Setembro de 1885.
Lawrence escreve de forma tão meditativa e envolvente, que ler suas obras é uma experiência sensorial.
Nada melhor do que uma taça de vinho para acompanhar sua densa e emocional narrativa.

Lawrence e seu romance mais famoso: Lady Chatterley’s Lover

                                   
Uma de suas mais conhecidas obras, e a minha predileta, O Amante de Lady Chatterley narra a história de Constance Chatterley, uma garota criada numa família burguesa e liberal, que poucos meses após seu casamento, vê seu marido Clifford partir rumo à guerra.

O homem que ela recebe de volta está paralisado da cintura para baixo, e eles se recolhem na vasta propriedade rural dos Chatterley.
Inteiramente devotado à sua carreira literária e depois aos negócios da família, Clifford vai aos poucos se distanciando da mulher.
Cercada de todo conforto, mas isolada e cheia de carências, Constance se deprime e sofre profundamente até conhecer Oliver Mellors, um rude caçador.
Constance e Oliver se envolvem em um tórrido romance e esse relacionamento trás de volta sua alegria de viver, a liberdade e a delícia de amar e ser amada integralmente.
D.H. Lawrence tem o talento de narrar com delicadeza e erotismo o resgate de Constance de seu lado mulher, de sua libido e de sua libertação.
Esse é um dos romances mais lindos que li.

Aqui um trecho do livro:

“Constance parecia transformada em mar, ondas que se inchavam e subiam em surtos impetuosos até que, lentamente, toda a massa obscura entrasse em ação – oceano a palpitar sua sombria massa silenciosa. E lá embaixo, no fundo dela, as profundezas do mar se separavam e rolavam lado a lado com o centro onde o mergulhador imergia docemente mais fundo; e ela se sentia alcançada cada vez mais no fundo, e as ondas de si mesma iam rolando para alguma praia, deixando-a descoberta; e cada vez para mais longe rolavam, e a abandonavam, até que, de súbito, numa delicada convulsão, o mais vivo do seu espasmo foi alcançado; ela o sentiu alcançado – e tudo se consumou: seu “eu” esvaiu-se; Constance não era mais Constance, e sim apenas mulher.”

Essa novela foi filmada duas vezes, uma em 1993 e outra em 2006. Veja o trailler da versão mais atual.

D.H. Lawrence escreveu também um lindo poema sobre vinhos, mas que infelizmente não encontrei tradução, e não me sinto apta a fazer isso aqui.  Então vou postar a versão em inglês:

Grapes

SO many fruits come from roses
From the rose of all roses
From the unfolded rose
Rose of all the world.

Admit that apples and strawberries and peaches and pears
and blackberries
Are all Rosaceae,
Issue of the explicit rose,
The open-countenanced, skyward-smiling rose.

What then of the vine?
Oh, what of the tendrilled vine?

Ours is the universe of the unfolded rose,
The explicit,
The candid revelation.

But long ago, oh, long ago
Before the rose began to simper supreme,
Before the rose of all roses, rose of all the world, was even
in bud,
Before the glaciers were gathered up in a bunch out of the
unsettled seas and winds,
Or else before they had been let down again, in Noah’s flood,
There was another world, a dusky, flowerless, tendrilled
world
And creatures webbed and marshy,
And on the margin, men soft-footed and pristine,
Still, and sensitive, and active,
Audile, tactile sensitiveness as of a tendril which orientates
and reaches out,
Reaching out and grasping by an instinct more delicate than
the moon’s as she feels for the tides.

Of which world, the vine was the invisible rose,
Before petals spread, before colour made its disturbance,
before eyes saw too much.

In a green, muddy, web-foot, unutterably songless world
The vine was rose of all roses.

There were no poppies or carnations,
Hardly a greenish lily, watery faint.
Green, dim, invisible flourishing of vines
Royally gesticulate.

Look now even now, how it keeps its power of invisibility!
Look how black, how blue-black, how globed in Egyptian
darkness
Dropping among his leaves, hangs the dark grape!
See him there, the swart, so palpably invisible:
Whom shall we ask about him?

The negro might know a little.
When the vine was rose, Gods were dark-skinned.
Bacchus is a dream’s dream.
Once God was all negroid, as now he is fair.
But it’s so long ago, the ancient Bushman has forgotten more
utterly than we, who have never known.

For we are on the brink of re-remembrance.
Which, I suppose, is why America has gone dry.
Our pale day is sinking into twilight,
And if we sip the wine, we find dreams coming upon us
Out of the imminent night.
Nay, we find ourselves crossing the fern-scented frontiers
Of the world before the floods, where man was dark and evasive
And the tiny vine-flower rose of all roses, perfumed,
And all in naked communion communicating as now our
clothed vision can never communicate.
Vistas, down dark avenues
As we sip the wine.

The grape is swart, the avenues dusky and tendrilled, subtly
prehensile.
But we, as we start awake, clutch at our vistas democratic,
boulevards, tram-cars, policemen.
Give us our own back
Let us go to the soda-fountain, to get sober.

Soberness, sobriety.
It is like the agonised perverseness of a child heavy with
sleep, yet fighting, fighting to keep awake;
Soberness, sobriety, with heavy eyes propped open.

Dusky are the avenues of wine,
And we must cross the frontiers, though we will not,
Of the lost, fern-scented world:
Take the fern-seed on our lips,
Close the eyes, and go
Down the tendrilled avenues of wine and the otherworld.

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