Arquivo da categoria: Literatura

A Procura, Cora Coralina

Andei pelos caminhos da vida.
Caminhei pelas ruas do destino-
procurando meu signo.

Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.

Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.

Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou que
ela tinha se mudado sem deixar novo endereço.

Procurei a morada da Fortaleza
Ela me fez entrar:

deu-me veste nova, perfumou meus cabelos…
fez-me beber de vinho.

Acertei o meu caminho.

Cora Coralina

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“Dizem que as sementes do que seremos um dia nascem conosco, mas sempre me pareceu que aqueles que não levam a vida totalmente a sério têm as sementes cobertas por um solo generoso e bem adubado.”
Ernest Hemingway, Paris é uma festa

O Erotismo da Comida, segundo Isabel Allende

“(…) É assim que recordo os homens que passaram pela minha vida – não quero me gabar, não foram muitos -, uns pela textura da pele, outros pelo sabor dos beijos, o cheiro das roupas ou o tom dos murmúrios, quase todos eles associados a um alimento especial.
O prazer carnal mais intenso, gozado sem pressa em uma cama desarrumada e clandestina, combinação perfeita de carícias, riso e jogos da mente, tem gosto de baguette, prosciutto, queijo francês e vinho do Reno.
Por meio de qualquer um destes tesouros da cozinha surge diante de mim um homem em particular, um antigo amante que volta sempre, como fantasma querido, para lançar uma luz maliciosa na minha idade madura.
Esse pão com presunto e queijo me devolve o cheiro de nossos abraços e esse vinho alemão, o sabor de sua boca.
Não consigo separar o erotismo da comida e não vejo razão para fazê-lo; ao contrário, pretendo continuar desfrutando de ambos enquanto tiver forças e bom humor.”

Trecho do livro “Afrodite – um livro de amores, aromas e sabores” de Isabel Allende.

Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Na taça: serei ledo, porque a dita

É ignara. Quem, lembrando

Ou prevendo, sorrira?

Dos brutos, não a vida, senão a alma,

Consigamos, pensando; recolhidos

No impalpável destino

Que não espera nem lembra.

Com mão mortal elevo à mortal boca

Em frágil taça o passageiro vinho,

Baços os olhos feitos

Para deixar de ver.

 

13-6-1926

Odes de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

A festa anual do vinho, uma fábula de Esopo

grape harvest 1890 - Padre Art
A Festa Anual do Vinho Na Itália, numa das aldeias das montanhas, os camponeses tinham o hábito de anualmente fazer da colheita uma festa.
Esta festa era esperada com muita ansiedade por todos, comemorada com tudo o que tinham direito na época e comentada ao longo do ano.
Para essa festa, cada morador da aldeia contribuía com uma garrafa de vinho de sua fabricação, e as despejavam num grande barril na praça central da aldeia.
O ponto alto da festa era a abertura desse barril, solenidade que atraia gente de todos os lugares que vinham degustar o famoso vinho, resultado do somatório de muitas garrafas de vinho selecionado.
Um dos moradores que há muitos anos participava do ritual pensou: “Por que vou levar meu melhor vinho? Vou levar é uma garrafa de água, e no meio de tanto vinho, ninguém perceberá…”
Quando chegou sua vez de despejar a garrafa de “vinho”, o fez de forma disfarçada para que os outros não percebessem.
No momento culminante da festa, quando da abertura do barril, todos estavam lá com suas canecas, prontos para saborear o famoso vinho.
Qual não foi a surpresa, na abertura da grande torneira, quando dela só saia água… – Eram litros e litros de pura água… – Porque todos os moradores tinham pensado a mesma coisa: –
“- Por que vou levar meu MELHOR vinho? – QUEM VAI SE DAR CONTA?”

Ilustração: Grape Harvest 1890, Padre Art

O ímpeto de crescer e viver intensamente, Anaïs Nin

p15 vinho
” O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. 

Enfrentei meus sentimentos. 
A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa. 
Mas não quero viver comigo mesma. 
Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. 
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. 
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas. 
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. 
Eu estava esperando. 
Está é a hora da expansão, do viver verdadeiro. 
Todo o resto foi uma preparação. 
A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções. 
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar.”

Anaïs Nin

Noite na Taverna, Álvares de Azevedo – vinhos e causos

391px-Álvares_de_AzevedoÁlvares de Azevedo, foi um escritor romântico,contista e poeta. Nasceu em São Paulo, em 12 de setembro de 1831 e morreu com apenas 21 anos.
Faz parte dos poetas que deixaram em segundo plano, os temas nacionalistas e indianistas, usados na primeira geração romântica, e mergulharam fundo em seu mundo interior. Seus poemas falam constantemente do tédio da vida, das frustrações amorosas e do sentimento de morte. A figura da mulher aparece em seus versos, ora como um anjo, ora como um ser fatal, mas sempre inacessível. Álvares de Azevedo é Patrono da cadeira nº 2, da Academia Brasileira de Letras.

 

 

 

Seu livro Noite na Taverna, escrito em 1878, proporciona ao leitor uma viagem ao mundo fantástico da melancolia e morbidez que caracterizam a época em que viveu Álvares de Azevedo.
Numa taverna, um grupo de conhecidos reúne-se para espantar o tédio com o vinho nos lábios e contos macabros afluindo da mente.
Eis aqui um trecho:

             

noite-taverna

                                                 Uma noite do século

Silencio, moços! Acabei com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?

— Cala-te Johann! Enquanto as mulheres dormem e Arnold-o-louro cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tiech, que música mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das taças?

— És um louco, Bertran! Não é a lua que lá vai macilenta: é o relâmpago que passa e ri de escárnio às agonias do povo que morre… aos soluços que seguem as mortualhas da cólera!

— Oh cólera! E que importa? Não há pôr ora vida bastante nas veias do homem? Não borbulha a febre ainda às ondas do vinho? Não reduz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?

— Vinho! Vinho! Não vês que as taças estão vazias e bebemos o vácuo, como um sonâmbulo?

— É o fetichismo na embriaguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!

— Oh! Vazio! Meu copo está vazio! Olá, taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?

— O vinho acabou-se nos copos, Bertran, mas o fumo ondula ainda nos cachimbos! Após dos vapores do vinho os vapores da fumaça! Senhores, em nome de todas as nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas esperanças que desbotaram, uma última saúde! A taverneira aí nos trouxe mais vinho: uma saúde! O fumo é a imagem doidealismo, é o transunto de tudo quanto há mais vaporoso naquele espiritualismo que nos fala da imortalidade da alma! e pois, ao fumo das Antilhas, à imortalidade da alma!

— Bravo! Bravo!

Um urra! tríplice respondeu ao moço meio ébrio.

Um conviva se ergueu entre a vozeria: contrastava-lhe com as faces de moço as rugas da fronte e a rouxidão dos lábios convulsos. Por entre os cabelos prateava-se-lhe o reflexo das luzes do festim. Falou:

— Calai-vos, malditos ! A imortalidade da Alma!? Pobres doidos! E por que a alma é bela, por que não concebeis que esse ideal possa tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra? Doidos! Nunca velada levastes por ventura uma noite à cabeceira de um cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrir-se, que era apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! E porque também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! Não mil vezes! a alma não é, como a lua, sempre moça, nua e bela em sua virgindade eterna! A vida não é mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas: o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo de verme vai alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da criança mais loura e bela. Como Schiller o disse, o átomo da inteligência de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Por isso eu vo-lo direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem ! talvez eu a creia um pouco, pelo platonismo, não!

— Solfieri! És um insensato! O materialismo é árido como o deserto, é escuro como o túmulo! A nós frontes queimadas pelo mormaço do sol da vida, a nós sobre cuja cabeça a velhice regelou os cabelos, essas crenças frias? A nós os sonhos do espiritualismo.

D.H. Lawrence, o vinho e seu romance mais famoso

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“Apesar de nosso dia pálido estar afundando em escuridão, quando tomamos vinho  nossos sonhos renascem e vencem a noite iminente.”       D. H. Lawrence

O escritor D. H. Lawrence nasceu em Nottingham em  11 de Setembro de 1885.
Lawrence escreve de forma tão meditativa e envolvente, que ler suas obras é uma experiência sensorial.
Nada melhor do que uma taça de vinho para acompanhar sua densa e emocional narrativa.

Lawrence e seu romance mais famoso: Lady Chatterley’s Lover

                                   
Uma de suas mais conhecidas obras, e a minha predileta, O Amante de Lady Chatterley narra a história de Constance Chatterley, uma garota criada numa família burguesa e liberal, que poucos meses após seu casamento, vê seu marido Clifford partir rumo à guerra.

O homem que ela recebe de volta está paralisado da cintura para baixo, e eles se recolhem na vasta propriedade rural dos Chatterley.
Inteiramente devotado à sua carreira literária e depois aos negócios da família, Clifford vai aos poucos se distanciando da mulher.
Cercada de todo conforto, mas isolada e cheia de carências, Constance se deprime e sofre profundamente até conhecer Oliver Mellors, um rude caçador.
Constance e Oliver se envolvem em um tórrido romance e esse relacionamento trás de volta sua alegria de viver, a liberdade e a delícia de amar e ser amada integralmente.
D.H. Lawrence tem o talento de narrar com delicadeza e erotismo o resgate de Constance de seu lado mulher, de sua libido e de sua libertação.
Esse é um dos romances mais lindos que li.

Aqui um trecho do livro:

“Constance parecia transformada em mar, ondas que se inchavam e subiam em surtos impetuosos até que, lentamente, toda a massa obscura entrasse em ação – oceano a palpitar sua sombria massa silenciosa. E lá embaixo, no fundo dela, as profundezas do mar se separavam e rolavam lado a lado com o centro onde o mergulhador imergia docemente mais fundo; e ela se sentia alcançada cada vez mais no fundo, e as ondas de si mesma iam rolando para alguma praia, deixando-a descoberta; e cada vez para mais longe rolavam, e a abandonavam, até que, de súbito, numa delicada convulsão, o mais vivo do seu espasmo foi alcançado; ela o sentiu alcançado – e tudo se consumou: seu “eu” esvaiu-se; Constance não era mais Constance, e sim apenas mulher.”

Essa novela foi filmada duas vezes, uma em 1993 e outra em 2006. Veja o trailler da versão mais atual.

D.H. Lawrence escreveu também um lindo poema sobre vinhos, mas que infelizmente não encontrei tradução, e não me sinto apta a fazer isso aqui.  Então vou postar a versão em inglês:

Grapes

SO many fruits come from roses
From the rose of all roses
From the unfolded rose
Rose of all the world.

Admit that apples and strawberries and peaches and pears
and blackberries
Are all Rosaceae,
Issue of the explicit rose,
The open-countenanced, skyward-smiling rose.

What then of the vine?
Oh, what of the tendrilled vine?

Ours is the universe of the unfolded rose,
The explicit,
The candid revelation.

But long ago, oh, long ago
Before the rose began to simper supreme,
Before the rose of all roses, rose of all the world, was even
in bud,
Before the glaciers were gathered up in a bunch out of the
unsettled seas and winds,
Or else before they had been let down again, in Noah’s flood,
There was another world, a dusky, flowerless, tendrilled
world
And creatures webbed and marshy,
And on the margin, men soft-footed and pristine,
Still, and sensitive, and active,
Audile, tactile sensitiveness as of a tendril which orientates
and reaches out,
Reaching out and grasping by an instinct more delicate than
the moon’s as she feels for the tides.

Of which world, the vine was the invisible rose,
Before petals spread, before colour made its disturbance,
before eyes saw too much.

In a green, muddy, web-foot, unutterably songless world
The vine was rose of all roses.

There were no poppies or carnations,
Hardly a greenish lily, watery faint.
Green, dim, invisible flourishing of vines
Royally gesticulate.

Look now even now, how it keeps its power of invisibility!
Look how black, how blue-black, how globed in Egyptian
darkness
Dropping among his leaves, hangs the dark grape!
See him there, the swart, so palpably invisible:
Whom shall we ask about him?

The negro might know a little.
When the vine was rose, Gods were dark-skinned.
Bacchus is a dream’s dream.
Once God was all negroid, as now he is fair.
But it’s so long ago, the ancient Bushman has forgotten more
utterly than we, who have never known.

For we are on the brink of re-remembrance.
Which, I suppose, is why America has gone dry.
Our pale day is sinking into twilight,
And if we sip the wine, we find dreams coming upon us
Out of the imminent night.
Nay, we find ourselves crossing the fern-scented frontiers
Of the world before the floods, where man was dark and evasive
And the tiny vine-flower rose of all roses, perfumed,
And all in naked communion communicating as now our
clothed vision can never communicate.
Vistas, down dark avenues
As we sip the wine.

The grape is swart, the avenues dusky and tendrilled, subtly
prehensile.
But we, as we start awake, clutch at our vistas democratic,
boulevards, tram-cars, policemen.
Give us our own back
Let us go to the soda-fountain, to get sober.

Soberness, sobriety.
It is like the agonised perverseness of a child heavy with
sleep, yet fighting, fighting to keep awake;
Soberness, sobriety, with heavy eyes propped open.

Dusky are the avenues of wine,
And we must cross the frontiers, though we will not,
Of the lost, fern-scented world:
Take the fern-seed on our lips,
Close the eyes, and go
Down the tendrilled avenues of wine and the otherworld.

Degustando a Vida com Alberto Caeiro

capa
Hoje tive o privilégio de retomar o contato com um grande amigo meu, um ex-professor e escritor que me ensinou literatura, me apresentou à Fernando Pessoa e me inspirou para sempre.
Dedico à ele um dos meus poemas preferidos.
Para ele também hoje vai o meu amor e gratidão por tanta inspiração.
O poema não fala de vinho diretamente, mas decidi postá-lo aqui, porque vinho é sensação, porque vinho desperta os sentidos.
Pensar um vinho, tal qual uma flor, é vê-lo, cheirá-lo e saber-lhe o sentido.
O GUARDADOR DE REBANHOS

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

pessoa