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Vinho e identidade

“Um povo que não bebe vinho tem um grave problema de identidade”.
Manuel Vázquez Montalbán

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O dia que Galeano visitou Neruda

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Fui a Isla Negra, à casa que foi, que é, de Pablo Neruda.

Era proibido entrar. Uma cerca de madeira rodeava a casa. Lá as pessoas tinham gravado seus recados para o poeta. Não tinham deixado nenhum pedacinho de madeira descoberta. Todos falavam com ele como se estivesse vivo. Com lápis ou pontas de pregos, cada um tinha encontrado sua maneira de dizer-lhe: obrigado.

Eu também encontrei, sem palavras, a minha maneira. E entrei sem entrar. E em silêncio ficamos conversando vinhos, o poeta e eu, caladamente falando de mares e amares e de alguma poção infalível contra a calvície. Compartilhamos camarões ao pil-pil e uma prodigiosa torta de jaibas e outras dessas maravilhas que alegram a alma e a pança, que são, como ele sabe muito bem, dois nomes para a mesma coisa.

Várias vezes erguemos taças de bom vinho, e um vento salgado golpeava nossas caras, e tudo foi uma cerimônia de maldição da ditadura, aquela lança negra cravada em seu torço, aquela puta dor enorme, e foi também uma cerimônia de celebração da vida, bela e efêmera como os altares de flores e os amores passageiros.

(Trecho de O livro dos abraços, de Eduardo Galeano)

A Origem do Mundo, Eduardo Galeano

Quadro de vinho

A origem do mundo

A guerra civil da Espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão.
Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. Contou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso, não entendia.
— Mas papai — disse Josep, chorando — se Deus não existe, quem fez o mundo?
— Bobo — disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando —. Bobo.
Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.

A Uva e o Vinho, Eduardo Galeano

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“A uva e o vinho


Um homem dos vinhedos falou, em agonia,
junto ao ouvido de Marcela.
Antes de morrer revelou a ela o segredo:
– A uva – sussurrou – é feita de vinho.
Marcela Pérez-Silva me contou isto, e eu pensei:
se a uva é feita de vinho,
talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.”


(Eduardo Galeano, escritor Uruguaio, em O Livro dos Abraços)

O poeta Manoel de Barros e o vinho, que tira sua timidez!

A edição deste mês da Revista da Cultura, exemplar gratuito publicado pela Livraria Cultura, está impecável.

2012-12-13 22.29.46
Tem uma imperdível entrevista com o poeta Manoel de Barros, que completará 96 anos, dia 19 de dezembro.
Reproduzo aqui alguns trechos:

RC: Com os 96 anos que se completam este mês, o viver muito e lúcido é uma dádiva ou em alguma circunstância chega a ser um tormento?
MB: Não tenho explicações para os 96. Se a gente faz só o que gosta, ajuda.  Mas isso é “um privilégio”.  Só faço inutilezas.

RC: É possível, afinal de contas, definir o que é poesia?
MB: É o mel da palavra.

RC: A sua fama de ser recluso é, de alguma maneira, aversão ao “estrelato”?
MB: Sou tímido. Só isso. Um gole de vinho me tira a timidez.

RC: Você acredita que o mistério nos completa? Quem é Deus, pelo menos para poesia?
MB: Deus é o verbo. O que faz. O que abastece o meu mistério.

RC: E o que é ser poeta?
MB: Fôssemos talvez merecidos de água, de rãs, de árvores, de pedras, de brisa, de garças.
A gente dementava as palavras – porque sempre tínhamos visões. Hoje eu vi um lagarto lamber as pernas
da manhã. Tínhamos desapetite para copiar. Gostávamos de transver a natureza. A gente não gostava de informar, mas só cantar.
As palavras não tinham comportamento. Nossa palavra era a raiz – vinha de nossas raízes. E moravam na infância sem comportamento.
Quem nasce poeta tem que se conformar que é meio parvo, meio tonto e meio cego.
Sempre usávamos visões como esta. Eu vi um prego primaveril! Temos de estudar ignoranças para saber o formato do silêncio e a cor dos arrebóis.
A infância sendo a raiz de nossas palavras, tem que trazer a inocência com ela. E a palavra inocente há de vir enrolada em seus caracóis.
Então, o poeta poderá cometer todos os erros de linguagem, porque está amparado na liberdade de ser ainda raiz.
Temos que desver a natureza para inventar outra.
Assim: hoje eu vi uma garça com olhar de oceano.
Por tudo isso e por isso que o poeta tem que se conformar que é um tonto ou um parvo!
Por fim: o que forma a imagem poética não é o VER, mas o TRANSVER.

2012-12-13 22.30.20

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