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Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Na taça: serei ledo, porque a dita

É ignara. Quem, lembrando

Ou prevendo, sorrira?

Dos brutos, não a vida, senão a alma,

Consigamos, pensando; recolhidos

No impalpável destino

Que não espera nem lembra.

Com mão mortal elevo à mortal boca

Em frágil taça o passageiro vinho,

Baços os olhos feitos

Para deixar de ver.

 

13-6-1926

Odes de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

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Degustando a Vida com Alberto Caeiro

capa
Hoje tive o privilégio de retomar o contato com um grande amigo meu, um ex-professor e escritor que me ensinou literatura, me apresentou à Fernando Pessoa e me inspirou para sempre.
Dedico à ele um dos meus poemas preferidos.
Para ele também hoje vai o meu amor e gratidão por tanta inspiração.
O poema não fala de vinho diretamente, mas decidi postá-lo aqui, porque vinho é sensação, porque vinho desperta os sentidos.
Pensar um vinho, tal qual uma flor, é vê-lo, cheirá-lo e saber-lhe o sentido.
O GUARDADOR DE REBANHOS

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

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