Arquivo da tag: Literatura

“Boa é a vida, mas melhor é o vinho”

Fernando Pessoa, que faz aniversário hoje _ nasceu em Lisboa, em 13 de Junho de 1888 _, era um amante de vinhos.

Anúncios

D.H. Lawrence, o vinho e seu romance mais famoso

wine

“Apesar de nosso dia pálido estar afundando em escuridão, quando tomamos vinho  nossos sonhos renascem e vencem a noite iminente.”       D. H. Lawrence

O escritor D. H. Lawrence nasceu em Nottingham em  11 de Setembro de 1885.
Lawrence escreve de forma tão meditativa e envolvente, que ler suas obras é uma experiência sensorial.
Nada melhor do que uma taça de vinho para acompanhar sua densa e emocional narrativa.

Lawrence e seu romance mais famoso: Lady Chatterley’s Lover

                                   
Uma de suas mais conhecidas obras, e a minha predileta, O Amante de Lady Chatterley narra a história de Constance Chatterley, uma garota criada numa família burguesa e liberal, que poucos meses após seu casamento, vê seu marido Clifford partir rumo à guerra.

O homem que ela recebe de volta está paralisado da cintura para baixo, e eles se recolhem na vasta propriedade rural dos Chatterley.
Inteiramente devotado à sua carreira literária e depois aos negócios da família, Clifford vai aos poucos se distanciando da mulher.
Cercada de todo conforto, mas isolada e cheia de carências, Constance se deprime e sofre profundamente até conhecer Oliver Mellors, um rude caçador.
Constance e Oliver se envolvem em um tórrido romance e esse relacionamento trás de volta sua alegria de viver, a liberdade e a delícia de amar e ser amada integralmente.
D.H. Lawrence tem o talento de narrar com delicadeza e erotismo o resgate de Constance de seu lado mulher, de sua libido e de sua libertação.
Esse é um dos romances mais lindos que li.

Aqui um trecho do livro:

“Constance parecia transformada em mar, ondas que se inchavam e subiam em surtos impetuosos até que, lentamente, toda a massa obscura entrasse em ação – oceano a palpitar sua sombria massa silenciosa. E lá embaixo, no fundo dela, as profundezas do mar se separavam e rolavam lado a lado com o centro onde o mergulhador imergia docemente mais fundo; e ela se sentia alcançada cada vez mais no fundo, e as ondas de si mesma iam rolando para alguma praia, deixando-a descoberta; e cada vez para mais longe rolavam, e a abandonavam, até que, de súbito, numa delicada convulsão, o mais vivo do seu espasmo foi alcançado; ela o sentiu alcançado – e tudo se consumou: seu “eu” esvaiu-se; Constance não era mais Constance, e sim apenas mulher.”

Essa novela foi filmada duas vezes, uma em 1993 e outra em 2006. Veja o trailler da versão mais atual.

D.H. Lawrence escreveu também um lindo poema sobre vinhos, mas que infelizmente não encontrei tradução, e não me sinto apta a fazer isso aqui.  Então vou postar a versão em inglês:

Grapes

SO many fruits come from roses
From the rose of all roses
From the unfolded rose
Rose of all the world.

Admit that apples and strawberries and peaches and pears
and blackberries
Are all Rosaceae,
Issue of the explicit rose,
The open-countenanced, skyward-smiling rose.

What then of the vine?
Oh, what of the tendrilled vine?

Ours is the universe of the unfolded rose,
The explicit,
The candid revelation.

But long ago, oh, long ago
Before the rose began to simper supreme,
Before the rose of all roses, rose of all the world, was even
in bud,
Before the glaciers were gathered up in a bunch out of the
unsettled seas and winds,
Or else before they had been let down again, in Noah’s flood,
There was another world, a dusky, flowerless, tendrilled
world
And creatures webbed and marshy,
And on the margin, men soft-footed and pristine,
Still, and sensitive, and active,
Audile, tactile sensitiveness as of a tendril which orientates
and reaches out,
Reaching out and grasping by an instinct more delicate than
the moon’s as she feels for the tides.

Of which world, the vine was the invisible rose,
Before petals spread, before colour made its disturbance,
before eyes saw too much.

In a green, muddy, web-foot, unutterably songless world
The vine was rose of all roses.

There were no poppies or carnations,
Hardly a greenish lily, watery faint.
Green, dim, invisible flourishing of vines
Royally gesticulate.

Look now even now, how it keeps its power of invisibility!
Look how black, how blue-black, how globed in Egyptian
darkness
Dropping among his leaves, hangs the dark grape!
See him there, the swart, so palpably invisible:
Whom shall we ask about him?

The negro might know a little.
When the vine was rose, Gods were dark-skinned.
Bacchus is a dream’s dream.
Once God was all negroid, as now he is fair.
But it’s so long ago, the ancient Bushman has forgotten more
utterly than we, who have never known.

For we are on the brink of re-remembrance.
Which, I suppose, is why America has gone dry.
Our pale day is sinking into twilight,
And if we sip the wine, we find dreams coming upon us
Out of the imminent night.
Nay, we find ourselves crossing the fern-scented frontiers
Of the world before the floods, where man was dark and evasive
And the tiny vine-flower rose of all roses, perfumed,
And all in naked communion communicating as now our
clothed vision can never communicate.
Vistas, down dark avenues
As we sip the wine.

The grape is swart, the avenues dusky and tendrilled, subtly
prehensile.
But we, as we start awake, clutch at our vistas democratic,
boulevards, tram-cars, policemen.
Give us our own back
Let us go to the soda-fountain, to get sober.

Soberness, sobriety.
It is like the agonised perverseness of a child heavy with
sleep, yet fighting, fighting to keep awake;
Soberness, sobriety, with heavy eyes propped open.

Dusky are the avenues of wine,
And we must cross the frontiers, though we will not,
Of the lost, fern-scented world:
Take the fern-seed on our lips,
Close the eyes, and go
Down the tendrilled avenues of wine and the otherworld.

As comidas e bebidas de “A Cidade do Sol”, de Tommaso Campanella

tommasoTommaso Campanella nasceu em 5 de setembro de 1568, em Stignano Italia.
Foi um filósofo renascentista, poeta e teólogo dominicano.
Uma de suas obras mais famosas “A Cidade do Sol”, descreve sua visão de uma cidade “ideal” imaginária, pautada no naturalismo e na integridade, onde os governantes agiam em sintonia perfeita e harmônica para o bem de todos.
O diálogo se passa entre o Grão Mestre da Ordem dos Hospitalários (G.M.) e um Almirante Genovês (ALM.).

Escolhi um pequeno trecho desse livro aonde ele conta como as pessoas se alimentam.
Sinceramente, gostaria de morar na Cidade do Sol.
É incrível pensar que um livro escrito em 1628 pode ser ainda tão atual.
Se quiserem ler, o livro está disponível na internet. Clique aqui para baixá-lo.

cittadelsole

(G.M.) – Coisa gratíssima me faria você falando dos alimentos e das bebidas, e como e quanto tempo vivem eles.

(ALM.) – Sua doutrina é que se deve, primeiro, prover à vida do todo e, depois, à das respectivas partes.
Por isso, ao construírem a cidade, trataram de ter propícias as quatro constelações de cada um dos quatro ângulos do mundo, as quais, como já se disse, se observam também na concepção de cada indivíduo, porque dizem que Deus atribuiu causas a todas as coisas, devendo o sábio conhecê-las, usá-las e não abusar delas.
Nutrem-se de carnes, manteiga, mel, queijo, tâmaras e legumes de diferentes espécies. Houve uma época em que não queriam matar os animais, parecendo-lhes isso uma ação bárbara, mas, ao
considerarem que também é crueldade extinguir plantas que gozam de sentido e vida própria, para não morrerem de fome, concluíram que as coisas ignóbeis foram criadas para beneficiar as mais nobres.
E é assim que, no presente, se alimentam de todos os animais,mas, na medida do possível, poupam os mais úteis, como os bois e os cavalos.
Fazem distinção entre alimentos sãos e nocivos, e, quanto à escolha, deixam-se dirigir pelo médico.
A alimentação é continuamente mudada por três vezes: primeiro, comem carne; depois, peixe; por fim, legumes.
Então, recomeçam com a carne, de forma que o hábito não enfraqueça as forças naturais.
Os alimentos de fácil digestão são dados aos velhos.
Estes comem três vezes ao dia e parcamente; duas vezes, a comunidade; e quatro, as crianças, segundo ordena o médico.
Em geral, vivem cem anos, sendo que não poucos também duzentos.
São de extrema temperança no que diz respeito às bebidas.
Os jovens menores de dezenove anos não bebem vinho, a não ser quando o requeiram razões de saúde.
Depois dessa idade, misturam-no com água.
Só aos cinqüenta anos é permitido bebê-lo puro.
As mesmas regras são válidas para as mulheres.
Os alimentos variam segundo as estações, seguindo-se sempre, a esse respeito, o conselho do protomédico.
Julgam que não são nocivos quando usados na estação em que Deus os produz e desde que não se abuse da quantidade.
Por isso, no verão, alimentam-se de frutas, porque são úmidas, suculentas e frias, em defesa da secura e do calor da estação; no inverno, comem alimentos secos; no outono, grande quantidade de uvas, concedidas pelo céu contra a bílis negra e a melancolia.
vinho frutas
Gostam muito de usar substâncias aromáticas.
De manhã, ao levantar-se, penteiam os cabelos e com água fria lavam as mãos e o rosto.
Depois, esfregam os dentes, ou mastigam hortelã, salsa ou erva-doce (os velhos, incenso).
Em seguida, voltando-se para o Oriente, recitam breve oração semelhante à ensinada por Jesus Cristo.
Depois, saem em vários grupos, pondo-se uns aos serviço dos velhos, outros entregando-se às funções públicas, etc.
Acompanham as lições, depois os exercícios corporais, depois ficam sentados em breve repouso e, por fim, vão jantar.
Escasso é, entre eles o número das moléstias.
Não conhecem a gota, a quiragra, a flatulência, pois essas enfermidades provêm do ócio ou da intemperança, ao passo que eles se livram, com a frugalidade e com o exercício, de toda superabundância de humores.
Consideram vergonhoso cuspir ou escarrar, dizendo que esse vício denota pouco exercício ou reprovável preguiça, ou resulta da devassidão ou da gulodice.
São, antes, sujeitos às inflamações e ao espasmo seco, em cujo tratamento empregam alimentos sãos e nutritivos.
Curam a tísica com banhos mornos, com laticínios, com a amenidade das habitações campestres, com moderado e agradável exercício.
A sífilis não pode fazer progressos, porque lavam assiduamente o corpo com vinho, untando-o com óleos aromáticos, de forma que o suor elimina o vapor fétido de que deriva a corrupção do sangue e da medula.
A tísica é rara, só muito poucas vezes sofrendo eles de catarros pulmonares, sendo que mal conhecem aquela espécie de asma que provém da densidade dos humores.
Curam as febres inflamatórias com beberagens de água fria, e as efêmeras com densos caldos aromáticos, ou com o sono, a música e a alegria.
dance