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O ímpeto de crescer e viver intensamente, Anaïs Nin

p15 vinho
” O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. 

Enfrentei meus sentimentos. 
A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa. 
Mas não quero viver comigo mesma. 
Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. 
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. 
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas. 
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. 
Eu estava esperando. 
Está é a hora da expansão, do viver verdadeiro. 
Todo o resto foi uma preparação. 
A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções. 
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar.”

Anaïs Nin

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Filosofando com Francis Mallmann

francis mallmann
“Arte é um pensamento intelectual, e comida e vinho têm mais a ver com os sentidos e a partilha. 
Comida e vinho fazem-nos mais aguçados, espirituosos. 
Só aí podem estimular nossos pensamentos e melhorar nossa comunhão com colegas, amigos, amantes. 
Certamente a cozinha pode ser intelectual, mas deveria sê-lo de modo mais silencioso e –atrevo-me a dizer – humilde.”

Francis Mallmann

Ode ao Vinho, Pablo Neruda

ode

Vinho cor do dia
vinho cor da noite
vinho com pés púrpura
o sangue de topázio
vinho,
estrelado filho
da terra
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um desordenado veludo
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso, marinho
nunca coubeste em um copo,
em um canto, em um homem,
coral, gregário és,
e quando menos mútuo.

O vinho
move a primavera
cresce como uma planta de alegria
caem muros,
penhascos,
se fecham os abismos,
nasce o canto.
Oh tu, jarra de vinho, no deserto
com a saborosa que amo,
disse o velho poeta.
Que o cântaro do vinho
ao peso do amor some seu beijo.

Amo sobre uma mesa,
quando se fala,
à luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou copo de topázio
ou colher de púrpura
que trabalhou no outono
até encher de vinho as vasilhas
e aprenda o homem obscuro,
no cerimonial de seu negócio,
a recordar a terra e seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

Um pouco de poesia, Alcoólicas por Hilda Hilst

Eu amo vinho e vinho, para mim, é uma forma de poesia.
Me torna melhor, melhora o meu olhar, me envolve, seduz, inebria, para finalmente transbordar minhas emoções.

Aqui, uma poesia de uma mulher intensa, cheia de vida e paixão.
p15 vinho

ALCOÓLICAS, por Hilda Hilst.

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A Vida é líquida.
(Alcoólicas – I)

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
(Alcoólicas – II)

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
(Alcoólicas – IV)

* * *

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
(Alcoólicas – V)

Degustando a Vida com Alberto Caeiro

capa
Hoje tive o privilégio de retomar o contato com um grande amigo meu, um ex-professor e escritor que me ensinou literatura, me apresentou à Fernando Pessoa e me inspirou para sempre.
Dedico à ele um dos meus poemas preferidos.
Para ele também hoje vai o meu amor e gratidão por tanta inspiração.
O poema não fala de vinho diretamente, mas decidi postá-lo aqui, porque vinho é sensação, porque vinho desperta os sentidos.
Pensar um vinho, tal qual uma flor, é vê-lo, cheirá-lo e saber-lhe o sentido.
O GUARDADOR DE REBANHOS

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

pessoa

Sentada sozinha, Goethe

images

Sentada sozinha,
Haveria melhor lugar?
O meu vinho
Bebo sozinha.
Ninguém a me incomodar,
E eu nas ideias a viajar

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) é um dos maiores nomes de toda a literatura alemã e de toda literatura universal. No texto acima, o vinho é o eterno companheiro do eu-lírico romântico quando apartado de seu amor

Ilustração Fabian Perez