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O ímpeto de crescer e viver intensamente, Anaïs Nin

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” O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. 

Enfrentei meus sentimentos. 
A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa. 
Mas não quero viver comigo mesma. 
Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. 
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. 
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas. 
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. 
Eu estava esperando. 
Está é a hora da expansão, do viver verdadeiro. 
Todo o resto foi uma preparação. 
A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções. 
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar.”

Anaïs Nin

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Filosofando com Francis Mallmann

francis mallmann
“Arte é um pensamento intelectual, e comida e vinho têm mais a ver com os sentidos e a partilha. 
Comida e vinho fazem-nos mais aguçados, espirituosos. 
Só aí podem estimular nossos pensamentos e melhorar nossa comunhão com colegas, amigos, amantes. 
Certamente a cozinha pode ser intelectual, mas deveria sê-lo de modo mais silencioso e –atrevo-me a dizer – humilde.”

Francis Mallmann

Ode ao Vinho, Pablo Neruda

ode

Vinho cor do dia
vinho cor da noite
vinho com pés púrpura
o sangue de topázio
vinho,
estrelado filho
da terra
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um desordenado veludo
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso, marinho
nunca coubeste em um copo,
em um canto, em um homem,
coral, gregário és,
e quando menos mútuo.

O vinho
move a primavera
cresce como uma planta de alegria
caem muros,
penhascos,
se fecham os abismos,
nasce o canto.
Oh tu, jarra de vinho, no deserto
com a saborosa que amo,
disse o velho poeta.
Que o cântaro do vinho
ao peso do amor some seu beijo.

Amo sobre uma mesa,
quando se fala,
à luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou copo de topázio
ou colher de púrpura
que trabalhou no outono
até encher de vinho as vasilhas
e aprenda o homem obscuro,
no cerimonial de seu negócio,
a recordar a terra e seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

Um pouco de poesia, Alcoólicas por Hilda Hilst

Eu amo vinho e vinho, para mim, é uma forma de poesia.
Me torna melhor, melhora o meu olhar, me envolve, seduz, inebria, para finalmente transbordar minhas emoções.

Aqui, uma poesia de uma mulher intensa, cheia de vida e paixão.
p15 vinho

ALCOÓLICAS, por Hilda Hilst.

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A Vida é líquida.
(Alcoólicas – I)

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
(Alcoólicas – II)

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
(Alcoólicas – IV)

* * *

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
(Alcoólicas – V)

Degustando a Vida com Alberto Caeiro

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Hoje tive o privilégio de retomar o contato com um grande amigo meu, um ex-professor e escritor que me ensinou literatura, me apresentou à Fernando Pessoa e me inspirou para sempre.
Dedico à ele um dos meus poemas preferidos.
Para ele também hoje vai o meu amor e gratidão por tanta inspiração.
O poema não fala de vinho diretamente, mas decidi postá-lo aqui, porque vinho é sensação, porque vinho desperta os sentidos.
Pensar um vinho, tal qual uma flor, é vê-lo, cheirá-lo e saber-lhe o sentido.
O GUARDADOR DE REBANHOS

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

pessoa

Sentada sozinha, Goethe

images

Sentada sozinha,
Haveria melhor lugar?
O meu vinho
Bebo sozinha.
Ninguém a me incomodar,
E eu nas ideias a viajar

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) é um dos maiores nomes de toda a literatura alemã e de toda literatura universal. No texto acima, o vinho é o eterno companheiro do eu-lírico romântico quando apartado de seu amor

Ilustração Fabian Perez

Olhar a vida com olhos embriagados e lunares

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«O ideal, na minha opinião, seria olhar a vida sem qualquer desejo, e não deixando pender a lingua como um cão.

Seria ser feliz na contemplação pura, estranho às contendas e à avidez do egoísmo, ser, dos pés à cabeça, frio e pardo como a cinza, mas com olhos embriagados e lunares.

O que eu preferia, sugere a si próprio o espírito iludido, seria amar a terra com um amor lunar e só com os olhos aflorar a beleza.

E aquilo a que eu chamaria o Imaculado Conhecimento de todas as coisas, seria nada pedir às coisas, antes apresentar-lhes um espelho de cem faces»

Nietzsche, Assim falou Zaratrustra
pintura Fabian Perez

Deus, segundo Baruch Spinoza

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Oi amigos, hoje não postarei algo sobre vinhos especificamente, mas sobre Degustar a Vida, brindá-la e aproveitá-la da melhor forma possível.
Saúde!

“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti. 

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.

Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.

O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti. Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é a única que há aqui e agora, e a única que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.

E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? 

Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti.” 

Baruch Spinoza (24 de novembro de 1632, Amsterdã — 21 de fevereiro de 1677, Haia) foi um dos grandes racionalistas do século XVII, dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.