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“Pois sou um bom cozinheiro”: Vinícius, poesia e receitas

A Livraria Mundo Gourmet abriu sua programação “Sabores nos Livros” ontem, dia 23/09/2013, com a apresentação do livro “Pois sou um bom cozinheiro – Receitas, histórias e sabores da vida de Vinicius de Moraes”.
Foi uma delícia ouvir Daniela Narciso, curadora da obra contar um pouco como o livro foi feito e ouvir a escritora Ana Rusche nos presentear com alguns trechos do livro.

A obra foi idealizada pela filha de Vinicius, Luciana de Moraes (1956-2011), ao tentar reproduzir as ceias de Natal na casa dos avós paternos.
Depois da morte de Luciana, Edith Gonçalves, 57, sua companheira por 23 anos, assumiu o projeto ao lado de Daniela Narciso.

Foram dois anos de pesquisas e entrevistas com familiares de Vinícius, escolha das principais receitas e sua elaboração por vários chefes famosos como Alex Atala e Claude Troisgros.
Esse lançamento faz parte das comemorações do centenário do nascimento do poeta, em 19 de outubro de 1913.

“Sabores nos Livros” é uma mistura de biografia, receitas e poesias.
No livro existem sugestão de harmonização dos pratos com várias bebidas, entre elas, a minha preferida: o vinho, que tenho certeza, harmonizaria com todas!!!

Aprecie sem moderação!

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O vinho, a falsa santidade e a prudência covarde

hafiz
“Em seu ensaio sobre poesia persa, Emerson elogia com as seguintes palavras o grande poeta Hafiz, um viciado em vinho:

Hafiz louva o vinho, as rosas, as donzelas, os meninos, os pássaros, as manhãs e a música, para dar expansão ao seu imenso júbilo e simpatia por todas as formas de beleza e alegria; e enfatiza tudo isso para mostrar seu desprezo pela falsa santidade e prudência covarde.

É contra a falsa santidade e a prudência covarde que se dirige grande parte da minha discussão, não a fim de incentivar o vício, mas para mostrar que vinho é compatível com a Virtude.

O modo certo de viver é desfrutando as nossas faculdades, lutando para gostar dos nossos próximos e se possível amá-los, e aceitar que a morte é necessária em si mesma e também um alívio abençoado para aqueles a quem de outra forma iríamos sobrecarregar.

Em minha opinião, os fanáticos por saúde, que têm envenenado todos os prazeres naturais, devem ser reunidos e trancafiados juntos num lugar onde se possam entediar mutuamente, empanturrando-se com suas inúteis panaceias para a vida eterna.

Quanto a nós, devemos viver nossos dias numa sucessão de banquetes que tenham como catalisador o vinho, como meio a conversa e como objetivo uma aceitação serena do destino.”

(Extraído do livro bebo, logo existo – guia de um filósofo para o vinho, de Roger Scruton)

Hedonismo

hedonismo
“Relaxe.

Chegou a hora de trabalhar menos e realizar mais, de rejeitar o comodismo e os perigos da vida estruturada e adotar a sabedoria dos antigos gregos, de quem herdamos uma palavra que define esse jeito de encarar as coisas: hedonismo.

Embora os defensores da disciplina da auto-ajuda nos digam o contrário, lazer e prazer ainda não morreram e nunca é tarde demais para o hedonista feliz que existe dentro de você vir à tona.

Permita que o desejo seja o seu guia enquanto você ousa sair de férias sem os seu laptop e o seu telefone celular.

Deixe o vinho e o sexo melhorarem a sua vida.

Ceda ao impulso secreto de não fazer absolutamente nada.”

(Extraído do livro Manual do Hedonista – Dominando a esquecida arte do prazer, de Michael Flocker)

Como um grande vinho, ficamos sim, melhores com o tempo!

margaux
“Quando somos jovens, temos muito medo de nos expor, de falharmos, darmos mancada, pois nos importamos muito mais com a opinião alheia e com o que estão pensando de nós.
Assim, acabamos por viver em um mundo irreal no qual agradamos muito mais aos outros do que à nós mesmos.
Quando amadurecemos, passamos a ter a consciência de que não temos mais todo aquele tempo que pensávamos.
Então, arriscamos mais, ousamos mais e ligamos muito menos para o que pensam de nós.
Amadurecer é dar um grito de liberdade sem se preocupar se o barulho está incomodando alguém!

Regiane Avila

O vinho, por Sócrates, o filósofo

books-wine
“O vinho molha e tempera os espíritos e acalma as preocupações da mente
ele reaviva nossas alegrias e é o óleo para a chama da vida que se apaga.
Se você bebe moderadamente em pequenos goles de cada vez,
o vinho gotejará em seus pulmões como o mais doce orvalho da manhã.
Assim, então, o vinho não viola a razão, mas sim nos convida gentilmente a uma agradável alegria.”

Sócrates

Ode ao Vinho, Pablo Neruda

ode

Vinho cor do dia
vinho cor da noite
vinho com pés púrpura
o sangue de topázio
vinho,
estrelado filho
da terra
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um desordenado veludo
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso, marinho
nunca coubeste em um copo,
em um canto, em um homem,
coral, gregário és,
e quando menos mútuo.

O vinho
move a primavera
cresce como uma planta de alegria
caem muros,
penhascos,
se fecham os abismos,
nasce o canto.
Oh tu, jarra de vinho, no deserto
com a saborosa que amo,
disse o velho poeta.
Que o cântaro do vinho
ao peso do amor some seu beijo.

Amo sobre uma mesa,
quando se fala,
à luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou copo de topázio
ou colher de púrpura
que trabalhou no outono
até encher de vinho as vasilhas
e aprenda o homem obscuro,
no cerimonial de seu negócio,
a recordar a terra e seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

Um pouco de poesia, Alcoólicas por Hilda Hilst

Eu amo vinho e vinho, para mim, é uma forma de poesia.
Me torna melhor, melhora o meu olhar, me envolve, seduz, inebria, para finalmente transbordar minhas emoções.

Aqui, uma poesia de uma mulher intensa, cheia de vida e paixão.
p15 vinho

ALCOÓLICAS, por Hilda Hilst.

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A Vida é líquida.
(Alcoólicas – I)

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
(Alcoólicas – II)

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
(Alcoólicas – IV)

* * *

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
(Alcoólicas – V)

Degustando a Vida com Alberto Caeiro

capa
Hoje tive o privilégio de retomar o contato com um grande amigo meu, um ex-professor e escritor que me ensinou literatura, me apresentou à Fernando Pessoa e me inspirou para sempre.
Dedico à ele um dos meus poemas preferidos.
Para ele também hoje vai o meu amor e gratidão por tanta inspiração.
O poema não fala de vinho diretamente, mas decidi postá-lo aqui, porque vinho é sensação, porque vinho desperta os sentidos.
Pensar um vinho, tal qual uma flor, é vê-lo, cheirá-lo e saber-lhe o sentido.
O GUARDADOR DE REBANHOS

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

pessoa

Eu e o Vinho

eueo

O vinho, para mim, tem uma magia que não encontro em nenhuma outra bebida.

Ele torna os alimentos mais saborosos, relaxa, desperta sensações, enfim, me conecta com meus sentimentos mais profundos.
Ler um livro, ouvir uma música, regados com uma taça de vinho, potencializa todas as sensações.
Um beijo molhado de vinho, fica muito mais saboroso.
Enfim, o vinho tem o poder de me colocar em um nível de consciência que me despe de censura e me transforma em sensações.
Um brinde à vida!
Saúde!!!

(Regiane Avila)