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“Pois sou um bom cozinheiro”: Vinícius, poesia e receitas

A Livraria Mundo Gourmet abriu sua programação “Sabores nos Livros” ontem, dia 23/09/2013, com a apresentação do livro “Pois sou um bom cozinheiro – Receitas, histórias e sabores da vida de Vinicius de Moraes”.
Foi uma delícia ouvir Daniela Narciso, curadora da obra contar um pouco como o livro foi feito e ouvir a escritora Ana Rusche nos presentear com alguns trechos do livro.

A obra foi idealizada pela filha de Vinicius, Luciana de Moraes (1956-2011), ao tentar reproduzir as ceias de Natal na casa dos avós paternos.
Depois da morte de Luciana, Edith Gonçalves, 57, sua companheira por 23 anos, assumiu o projeto ao lado de Daniela Narciso.

Foram dois anos de pesquisas e entrevistas com familiares de Vinícius, escolha das principais receitas e sua elaboração por vários chefes famosos como Alex Atala e Claude Troisgros.
Esse lançamento faz parte das comemorações do centenário do nascimento do poeta, em 19 de outubro de 1913.

“Sabores nos Livros” é uma mistura de biografia, receitas e poesias.
No livro existem sugestão de harmonização dos pratos com várias bebidas, entre elas, a minha preferida: o vinho, que tenho certeza, harmonizaria com todas!!!

Aprecie sem moderação!

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Noite na Taverna, Álvares de Azevedo – vinhos e causos

391px-Álvares_de_AzevedoÁlvares de Azevedo, foi um escritor romântico,contista e poeta. Nasceu em São Paulo, em 12 de setembro de 1831 e morreu com apenas 21 anos.
Faz parte dos poetas que deixaram em segundo plano, os temas nacionalistas e indianistas, usados na primeira geração romântica, e mergulharam fundo em seu mundo interior. Seus poemas falam constantemente do tédio da vida, das frustrações amorosas e do sentimento de morte. A figura da mulher aparece em seus versos, ora como um anjo, ora como um ser fatal, mas sempre inacessível. Álvares de Azevedo é Patrono da cadeira nº 2, da Academia Brasileira de Letras.

 

 

 

Seu livro Noite na Taverna, escrito em 1878, proporciona ao leitor uma viagem ao mundo fantástico da melancolia e morbidez que caracterizam a época em que viveu Álvares de Azevedo.
Numa taverna, um grupo de conhecidos reúne-se para espantar o tédio com o vinho nos lábios e contos macabros afluindo da mente.
Eis aqui um trecho:

             

noite-taverna

                                                 Uma noite do século

Silencio, moços! Acabei com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?

— Cala-te Johann! Enquanto as mulheres dormem e Arnold-o-louro cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tiech, que música mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das taças?

— És um louco, Bertran! Não é a lua que lá vai macilenta: é o relâmpago que passa e ri de escárnio às agonias do povo que morre… aos soluços que seguem as mortualhas da cólera!

— Oh cólera! E que importa? Não há pôr ora vida bastante nas veias do homem? Não borbulha a febre ainda às ondas do vinho? Não reduz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?

— Vinho! Vinho! Não vês que as taças estão vazias e bebemos o vácuo, como um sonâmbulo?

— É o fetichismo na embriaguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!

— Oh! Vazio! Meu copo está vazio! Olá, taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?

— O vinho acabou-se nos copos, Bertran, mas o fumo ondula ainda nos cachimbos! Após dos vapores do vinho os vapores da fumaça! Senhores, em nome de todas as nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas esperanças que desbotaram, uma última saúde! A taverneira aí nos trouxe mais vinho: uma saúde! O fumo é a imagem doidealismo, é o transunto de tudo quanto há mais vaporoso naquele espiritualismo que nos fala da imortalidade da alma! e pois, ao fumo das Antilhas, à imortalidade da alma!

— Bravo! Bravo!

Um urra! tríplice respondeu ao moço meio ébrio.

Um conviva se ergueu entre a vozeria: contrastava-lhe com as faces de moço as rugas da fronte e a rouxidão dos lábios convulsos. Por entre os cabelos prateava-se-lhe o reflexo das luzes do festim. Falou:

— Calai-vos, malditos ! A imortalidade da Alma!? Pobres doidos! E por que a alma é bela, por que não concebeis que esse ideal possa tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra? Doidos! Nunca velada levastes por ventura uma noite à cabeceira de um cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrir-se, que era apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! E porque também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! Não mil vezes! a alma não é, como a lua, sempre moça, nua e bela em sua virgindade eterna! A vida não é mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas: o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo de verme vai alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da criança mais loura e bela. Como Schiller o disse, o átomo da inteligência de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Por isso eu vo-lo direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem ! talvez eu a creia um pouco, pelo platonismo, não!

— Solfieri! És um insensato! O materialismo é árido como o deserto, é escuro como o túmulo! A nós frontes queimadas pelo mormaço do sol da vida, a nós sobre cuja cabeça a velhice regelou os cabelos, essas crenças frias? A nós os sonhos do espiritualismo.

D.H. Lawrence, o vinho e seu romance mais famoso

wine

“Apesar de nosso dia pálido estar afundando em escuridão, quando tomamos vinho  nossos sonhos renascem e vencem a noite iminente.”       D. H. Lawrence

O escritor D. H. Lawrence nasceu em Nottingham em  11 de Setembro de 1885.
Lawrence escreve de forma tão meditativa e envolvente, que ler suas obras é uma experiência sensorial.
Nada melhor do que uma taça de vinho para acompanhar sua densa e emocional narrativa.

Lawrence e seu romance mais famoso: Lady Chatterley’s Lover

                                   
Uma de suas mais conhecidas obras, e a minha predileta, O Amante de Lady Chatterley narra a história de Constance Chatterley, uma garota criada numa família burguesa e liberal, que poucos meses após seu casamento, vê seu marido Clifford partir rumo à guerra.

O homem que ela recebe de volta está paralisado da cintura para baixo, e eles se recolhem na vasta propriedade rural dos Chatterley.
Inteiramente devotado à sua carreira literária e depois aos negócios da família, Clifford vai aos poucos se distanciando da mulher.
Cercada de todo conforto, mas isolada e cheia de carências, Constance se deprime e sofre profundamente até conhecer Oliver Mellors, um rude caçador.
Constance e Oliver se envolvem em um tórrido romance e esse relacionamento trás de volta sua alegria de viver, a liberdade e a delícia de amar e ser amada integralmente.
D.H. Lawrence tem o talento de narrar com delicadeza e erotismo o resgate de Constance de seu lado mulher, de sua libido e de sua libertação.
Esse é um dos romances mais lindos que li.

Aqui um trecho do livro:

“Constance parecia transformada em mar, ondas que se inchavam e subiam em surtos impetuosos até que, lentamente, toda a massa obscura entrasse em ação – oceano a palpitar sua sombria massa silenciosa. E lá embaixo, no fundo dela, as profundezas do mar se separavam e rolavam lado a lado com o centro onde o mergulhador imergia docemente mais fundo; e ela se sentia alcançada cada vez mais no fundo, e as ondas de si mesma iam rolando para alguma praia, deixando-a descoberta; e cada vez para mais longe rolavam, e a abandonavam, até que, de súbito, numa delicada convulsão, o mais vivo do seu espasmo foi alcançado; ela o sentiu alcançado – e tudo se consumou: seu “eu” esvaiu-se; Constance não era mais Constance, e sim apenas mulher.”

Essa novela foi filmada duas vezes, uma em 1993 e outra em 2006. Veja o trailler da versão mais atual.

D.H. Lawrence escreveu também um lindo poema sobre vinhos, mas que infelizmente não encontrei tradução, e não me sinto apta a fazer isso aqui.  Então vou postar a versão em inglês:

Grapes

SO many fruits come from roses
From the rose of all roses
From the unfolded rose
Rose of all the world.

Admit that apples and strawberries and peaches and pears
and blackberries
Are all Rosaceae,
Issue of the explicit rose,
The open-countenanced, skyward-smiling rose.

What then of the vine?
Oh, what of the tendrilled vine?

Ours is the universe of the unfolded rose,
The explicit,
The candid revelation.

But long ago, oh, long ago
Before the rose began to simper supreme,
Before the rose of all roses, rose of all the world, was even
in bud,
Before the glaciers were gathered up in a bunch out of the
unsettled seas and winds,
Or else before they had been let down again, in Noah’s flood,
There was another world, a dusky, flowerless, tendrilled
world
And creatures webbed and marshy,
And on the margin, men soft-footed and pristine,
Still, and sensitive, and active,
Audile, tactile sensitiveness as of a tendril which orientates
and reaches out,
Reaching out and grasping by an instinct more delicate than
the moon’s as she feels for the tides.

Of which world, the vine was the invisible rose,
Before petals spread, before colour made its disturbance,
before eyes saw too much.

In a green, muddy, web-foot, unutterably songless world
The vine was rose of all roses.

There were no poppies or carnations,
Hardly a greenish lily, watery faint.
Green, dim, invisible flourishing of vines
Royally gesticulate.

Look now even now, how it keeps its power of invisibility!
Look how black, how blue-black, how globed in Egyptian
darkness
Dropping among his leaves, hangs the dark grape!
See him there, the swart, so palpably invisible:
Whom shall we ask about him?

The negro might know a little.
When the vine was rose, Gods were dark-skinned.
Bacchus is a dream’s dream.
Once God was all negroid, as now he is fair.
But it’s so long ago, the ancient Bushman has forgotten more
utterly than we, who have never known.

For we are on the brink of re-remembrance.
Which, I suppose, is why America has gone dry.
Our pale day is sinking into twilight,
And if we sip the wine, we find dreams coming upon us
Out of the imminent night.
Nay, we find ourselves crossing the fern-scented frontiers
Of the world before the floods, where man was dark and evasive
And the tiny vine-flower rose of all roses, perfumed,
And all in naked communion communicating as now our
clothed vision can never communicate.
Vistas, down dark avenues
As we sip the wine.

The grape is swart, the avenues dusky and tendrilled, subtly
prehensile.
But we, as we start awake, clutch at our vistas democratic,
boulevards, tram-cars, policemen.
Give us our own back
Let us go to the soda-fountain, to get sober.

Soberness, sobriety.
It is like the agonised perverseness of a child heavy with
sleep, yet fighting, fighting to keep awake;
Soberness, sobriety, with heavy eyes propped open.

Dusky are the avenues of wine,
And we must cross the frontiers, though we will not,
Of the lost, fern-scented world:
Take the fern-seed on our lips,
Close the eyes, and go
Down the tendrilled avenues of wine and the otherworld.

Você sabe o que é uma Denominação de Origem?

Contando um pouco de história

Até o século XVII a Inglaterra era uma grande consumidora dos vinhos franceses.
Porém, em 1703, com o objetivo de impor um embargo à França, Inglaterra e Portugal firmaram um acordo
comercial que obrigava a Inglaterra a comprar apenas vinhos de Portugal com tarifas aduaneiras
preferenciais: o Tratado de Methuen.

Essa foi uma ótima oportunidade de crescimento para Portugal, porém, para que os vinhos aguentassem a longa viagem de navio, era adicionada aguardente vínica à ele.
Como saia da cidade portuária do Porto, esse vinho passou a ser conhecido como “Vinho do Porto”.

PORTO

O consumo por esse vinho, principalmente pelos ingleses, aumentou a demanda e consequentemente
começaram a aparecer no mercado produtos falsificados e adulterados.
Por essa razão, em 10 de setembro de 1756 surgiu a primeira região vinícola demarcada do mundo:
A região do Douro.

DOURO

Criada pelo Marquês de Pombal, a COMPANHIA PARA A AGRICULTURA DAS VINHAS DO ALTO DOURO ou REAL
COMPANHIA VELHA detinha a exclusiva produção e distribuição do Vinho do Porto e até hoje garante a
qualidade, respeitando normas de produção e envelhecimento rigorosamente controladas.

Aos poucos, outros países produtores foram criando suas próprias denominações:

As denominações de origem ao redor do mundo:

França:    A.O.C.  (Appellation d’origine contrôlée)
Espanha: D.O.  (Denominación de Origen)
Países de língua portuguesa: D.O.C. (Denominação de Origem Controlada )
Itália: D.O.C. (Denominazione di Origine Controllata)
Alemanha: Q.B.A (Qualitätswein Bestimmter Anbaugebiete)
África do Sul: W.O. (Wine of Origin)

Lembrando que dentro que cada país existem também as regiões com suas respectivas denominações. A Espanha, por exemplo, possui 69!

A partir de 2012 o Brasil também conquistou sua primeira denominação: a Denominação de Origem Vale dos Vinhedos.
Dada a diversidade de terroir do nosso país, certamente teremos muitas outras mais por aqui.

VALE DOS VINHEDOS2

Hoje é Dia do Sexo! Um brinde aos prazeres da vida!

Você sabia que hoje, dia 6/9 comemora-se o Dia do Sexo? Sabe como ele começou?
Em 2008 a empresa de preservativos Olla criou uma campanha de marketing fazendo uma brincadeira relacionando o dia 6/9, ao famoso 69!

meianove
E parece que a moda pegou pois estamos aqui, há 5 anos, comemorando esse dia!

Então, como o assunto hoje é sexo, e tudo que falo aqui tem que ter vinho no contexto, resolvi falar dessa que, para mim, é a harmonização perfeita: sexo e vinho!

“O vinho molha e tempera os espíritos e acalma as preocupações da mente…
ele reaviva as nossas alegrias e é o óleo para a chama da vida que se apaga.
Se beber moderadamente, em pequenos goles de cada vez, o vinho gotejará nos seus pulmões como o mais doce orvalho da manhã…
Assim, então, o vinho não viola a razão, mas convida-nos gentilmente a uma agradável alegria.”

Sócrates

p15 vinho

Como o vinho nos embriaga sem nos embebedar, ele nos liberta e assim deixamos de lado a censura e falsos moralismos …
ficamos, digamos … facinhos.
E eu acho isso muito bom! Afinal somos humanos, de carne e osso, com vontades e desejos!
Em um momento em que o trabalho e as responsabilidades dominam nossas vidas e que o tempo dedicado aos prazeres é cada vez mais curto, nada melhor do que se entregar ao que se sente mesmo e ser feliz!

Escolhi um texto, uma música e um poema, todos sobre sexo.
Espero que gostem, que os harmonizem com um delicioso vinho, champagne ou espumante e que acima de tudo degustem a vida!!!

O texto:
Nude Couple Embracing in Bed“O que realmente acontece quando um casal se move no reino da experiência orgástica? O que realmente acontece? Cada ponto precisa ser entendido. O tempo para; por um momento o pêndulo não se move, e esse único momento parece ser praticamente a eternidade. As duas pessoas não são mais duas – por um momento. Elas se fundiram uma na outra; não existe pensamento na mente, por um momento; ela está toda vazia e silenciosa, e essas são as coisas que devem ser aprofundadas em meditação.”
Osho


A música:

O poema:

sex

Noite de chuva

Amor em taça, misturado ao vinho tinto
Beijos sabor de uva
Caricias que embriagam
Corpo a corpo, suave… Seco.
Taças de carinho com vinho tinto,
Transbordando, soltando liberando,
Emoções em pequenos goles,
Embriagando-nos de desejo.
Taças de loucura mesclada ao vinho tinto,
Corpos molhados qual a chuva que cai.
Entregando-se com plenitude, em êxtase,
No ópio da insensatez… Entorpecendo a razão.

Taças com vinhos, esquecidas, viradas,
Testemunhas mudas do amor que descansa,
Balança os sentidos, a razão…
Taças de calmaria… Sem vinho… com esperança

As comidas e bebidas de “A Cidade do Sol”, de Tommaso Campanella

tommasoTommaso Campanella nasceu em 5 de setembro de 1568, em Stignano Italia.
Foi um filósofo renascentista, poeta e teólogo dominicano.
Uma de suas obras mais famosas “A Cidade do Sol”, descreve sua visão de uma cidade “ideal” imaginária, pautada no naturalismo e na integridade, onde os governantes agiam em sintonia perfeita e harmônica para o bem de todos.
O diálogo se passa entre o Grão Mestre da Ordem dos Hospitalários (G.M.) e um Almirante Genovês (ALM.).

Escolhi um pequeno trecho desse livro aonde ele conta como as pessoas se alimentam.
Sinceramente, gostaria de morar na Cidade do Sol.
É incrível pensar que um livro escrito em 1628 pode ser ainda tão atual.
Se quiserem ler, o livro está disponível na internet. Clique aqui para baixá-lo.

cittadelsole

(G.M.) – Coisa gratíssima me faria você falando dos alimentos e das bebidas, e como e quanto tempo vivem eles.

(ALM.) – Sua doutrina é que se deve, primeiro, prover à vida do todo e, depois, à das respectivas partes.
Por isso, ao construírem a cidade, trataram de ter propícias as quatro constelações de cada um dos quatro ângulos do mundo, as quais, como já se disse, se observam também na concepção de cada indivíduo, porque dizem que Deus atribuiu causas a todas as coisas, devendo o sábio conhecê-las, usá-las e não abusar delas.
Nutrem-se de carnes, manteiga, mel, queijo, tâmaras e legumes de diferentes espécies. Houve uma época em que não queriam matar os animais, parecendo-lhes isso uma ação bárbara, mas, ao
considerarem que também é crueldade extinguir plantas que gozam de sentido e vida própria, para não morrerem de fome, concluíram que as coisas ignóbeis foram criadas para beneficiar as mais nobres.
E é assim que, no presente, se alimentam de todos os animais,mas, na medida do possível, poupam os mais úteis, como os bois e os cavalos.
Fazem distinção entre alimentos sãos e nocivos, e, quanto à escolha, deixam-se dirigir pelo médico.
A alimentação é continuamente mudada por três vezes: primeiro, comem carne; depois, peixe; por fim, legumes.
Então, recomeçam com a carne, de forma que o hábito não enfraqueça as forças naturais.
Os alimentos de fácil digestão são dados aos velhos.
Estes comem três vezes ao dia e parcamente; duas vezes, a comunidade; e quatro, as crianças, segundo ordena o médico.
Em geral, vivem cem anos, sendo que não poucos também duzentos.
São de extrema temperança no que diz respeito às bebidas.
Os jovens menores de dezenove anos não bebem vinho, a não ser quando o requeiram razões de saúde.
Depois dessa idade, misturam-no com água.
Só aos cinqüenta anos é permitido bebê-lo puro.
As mesmas regras são válidas para as mulheres.
Os alimentos variam segundo as estações, seguindo-se sempre, a esse respeito, o conselho do protomédico.
Julgam que não são nocivos quando usados na estação em que Deus os produz e desde que não se abuse da quantidade.
Por isso, no verão, alimentam-se de frutas, porque são úmidas, suculentas e frias, em defesa da secura e do calor da estação; no inverno, comem alimentos secos; no outono, grande quantidade de uvas, concedidas pelo céu contra a bílis negra e a melancolia.
vinho frutas
Gostam muito de usar substâncias aromáticas.
De manhã, ao levantar-se, penteiam os cabelos e com água fria lavam as mãos e o rosto.
Depois, esfregam os dentes, ou mastigam hortelã, salsa ou erva-doce (os velhos, incenso).
Em seguida, voltando-se para o Oriente, recitam breve oração semelhante à ensinada por Jesus Cristo.
Depois, saem em vários grupos, pondo-se uns aos serviço dos velhos, outros entregando-se às funções públicas, etc.
Acompanham as lições, depois os exercícios corporais, depois ficam sentados em breve repouso e, por fim, vão jantar.
Escasso é, entre eles o número das moléstias.
Não conhecem a gota, a quiragra, a flatulência, pois essas enfermidades provêm do ócio ou da intemperança, ao passo que eles se livram, com a frugalidade e com o exercício, de toda superabundância de humores.
Consideram vergonhoso cuspir ou escarrar, dizendo que esse vício denota pouco exercício ou reprovável preguiça, ou resulta da devassidão ou da gulodice.
São, antes, sujeitos às inflamações e ao espasmo seco, em cujo tratamento empregam alimentos sãos e nutritivos.
Curam a tísica com banhos mornos, com laticínios, com a amenidade das habitações campestres, com moderado e agradável exercício.
A sífilis não pode fazer progressos, porque lavam assiduamente o corpo com vinho, untando-o com óleos aromáticos, de forma que o suor elimina o vapor fétido de que deriva a corrupção do sangue e da medula.
A tísica é rara, só muito poucas vezes sofrendo eles de catarros pulmonares, sendo que mal conhecem aquela espécie de asma que provém da densidade dos humores.
Curam as febres inflamatórias com beberagens de água fria, e as efêmeras com densos caldos aromáticos, ou com o sono, a música e a alegria.
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Olfato, o mais primitivo dos sentidos

O cheiro está em tudo: no amor, no apetite, nas melhores lembranças. Pensando bem, todo odor provoca sentimentos.

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Um simples aspirar e basta para despertar fome, provocar atração ou repulsa, trazer de volta cenas do passado.
Cheirar é se emocionar sempre,  e na maioria das vezes isso é tão sutil que não prestamos atenção ao mais primitivo e intrigante dos sentidos.

Observando o comportamento dos bebês, os cientistas concluíram que a partir da primeira semana eles já reconhecem o odor da mãe. Aliás, todas as pessoas têm um cheiro próprio, uma espécie de combinação final de todas as substâncias odoríferas liberadas através da pele. Não se sabe ainda se o cheiro de cada um é de fato uma marca registrada tão particular como uma impressão digital, mas é provável que sim.

Tudo tem cheiro e para o identificarmos, nosso cérebro recorre à memória olfativa. É nela que ele identifica a qual objeto um aroma está relacionado. E é nela também que está armazenada a relação entre um cheiro e a sensação a qual aquele cheiro nos remete, a algo que vivemos no passado.

O olfato influencia também o paladar. Já que esse sentido apenas identifica os sabores doce, amargo, azedo e ácido, é o olfato que dirá se estamos mastigando uma banana ou um mamão.

 E por que as coisas têm cheiro? O que é um cheiro?

Todas as coisas que têm cheiro estão liberando moléculas – quer seja um pão ou um bolo saindo do forno, cebolas, um pedaço de fruta ou um vinho. Essas moléculas geralmente são compostos químicos leves e voláteis (de fácil evaporação) que flutuam pelo ar até chegar ao nariz. São elas: ácidos graxos, álcoois, aldeídos, cetonas, terpenosisso e principalmente os ésteres.

Falando de vinhos, sabemos que eles também têm cheiro, o qual chamamos bouquet e que é o “cartão de visitas” na hora da degustação. É o bouquet que nos contará se um vinho está estragado ou perfeito para ser degustado, se passou por madeira ou por algum tipo especial de fermentação.

vinhos tipos

E  por que os vinhos não têm cheiro de uva?

Porque o vinho é um suco de uva que passou pelo processo de fermentação e através dele, as enzimas transformaram o açucar em álcool e vários aromas acabaram aparecendo devido a esse processo químico.
É por isso que encontramos aromas de morango, abacaxi, baunilha, entre outros, em um vinho – pois os compostos químicos que descrevemos acima são os mesmos dessas frutas, por exemplo.
No caso do vinho esses aromas vão mudando com o passar do tempo, devido a novos processos químicos que continuam acontecendo na garrafa, na medida em que o vinho vai tendo contato com o oxigênio. É por isso que um vinho mais velho não terá mais os aromas de frutas frescas dos vinhos jovens, e sim de couro, tostado, defumado, etc.

Aqui uma tabela com os respectivos aromas entre vinhos e os compostos químicos:
tabela

Você percebe o quanto o cheiro é importante e o quanto é legal prestarmos mais atenção a ele?

Exercite esse sentido: vá à uma feira e cheire as frutas, os legumes, as ervas, as flores, os temperos … seja um pouco mais politicamente incorreto e cheire sim sua comida! Enfim, cheire tudo!

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Isso é tão natural, mas a sociedade complica tanto, que nos afastamos dos prazeres mais básicos
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Entre um casal, o cheiro é o começo de tudo.  É uma questão química: o odor natural de cada um desperta o desejo no outro e faz com que a atração se estabeleça.
Então, cheire mais, exercite isso, sem medo de ser feliz!!!

(fontes:
Revista Super Interessante http://super.abril.com.br/cotidiano/olfato-sentido-vida-438456.shtml ,
Uol Saúde http://www.hsw.uol.com.br/questao139.htm) e interpretação livre de Regiane Avila

(foto da imagem destacada de Nadia Jung)

French Kiss, um filme para Wine Lovers!

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Quem se lembra desse filme?
Fazia tempo que estava com vontade de assisti-lo novamente e hoje consegui.
Trata-se de uma comédia romântica de 1995, estrelada por Meg Ryan e Kevin Kline e dirigida por Lawrence Kasdan.

Além do romance, o filme mostra paisagens de vinhedos, vinhos e aromas.

Tem um diálogo legal entre Kate (Meg Ryan), uma americana que não sabe nada sobre vinhos e Luc (Kevin Kline), que foi criado em meio aos vinhedos franceses:

Luc: First, you must take some wine. Can you describe it, the taste?

Kate: It’s a nice red wine.

Luc: I think you can do better.

Kate: A bold wine with a hint of sophistication and lacking in pretension.
Actually, I was just talking about myself.

Luc: You are not wrong. Wine is like people. The vine takes all the influences in life all around it. It absorbs them and it gets its personality.

O vinho, a falsa santidade e a prudência covarde

hafiz
“Em seu ensaio sobre poesia persa, Emerson elogia com as seguintes palavras o grande poeta Hafiz, um viciado em vinho:

Hafiz louva o vinho, as rosas, as donzelas, os meninos, os pássaros, as manhãs e a música, para dar expansão ao seu imenso júbilo e simpatia por todas as formas de beleza e alegria; e enfatiza tudo isso para mostrar seu desprezo pela falsa santidade e prudência covarde.

É contra a falsa santidade e a prudência covarde que se dirige grande parte da minha discussão, não a fim de incentivar o vício, mas para mostrar que vinho é compatível com a Virtude.

O modo certo de viver é desfrutando as nossas faculdades, lutando para gostar dos nossos próximos e se possível amá-los, e aceitar que a morte é necessária em si mesma e também um alívio abençoado para aqueles a quem de outra forma iríamos sobrecarregar.

Em minha opinião, os fanáticos por saúde, que têm envenenado todos os prazeres naturais, devem ser reunidos e trancafiados juntos num lugar onde se possam entediar mutuamente, empanturrando-se com suas inúteis panaceias para a vida eterna.

Quanto a nós, devemos viver nossos dias numa sucessão de banquetes que tenham como catalisador o vinho, como meio a conversa e como objetivo uma aceitação serena do destino.”

(Extraído do livro bebo, logo existo – guia de um filósofo para o vinho, de Roger Scruton)

Hedonismo

hedonismo
“Relaxe.

Chegou a hora de trabalhar menos e realizar mais, de rejeitar o comodismo e os perigos da vida estruturada e adotar a sabedoria dos antigos gregos, de quem herdamos uma palavra que define esse jeito de encarar as coisas: hedonismo.

Embora os defensores da disciplina da auto-ajuda nos digam o contrário, lazer e prazer ainda não morreram e nunca é tarde demais para o hedonista feliz que existe dentro de você vir à tona.

Permita que o desejo seja o seu guia enquanto você ousa sair de férias sem os seu laptop e o seu telefone celular.

Deixe o vinho e o sexo melhorarem a sua vida.

Ceda ao impulso secreto de não fazer absolutamente nada.”

(Extraído do livro Manual do Hedonista – Dominando a esquecida arte do prazer, de Michael Flocker)