Citações

“Dizem que as sementes do que seremos um dia nascem conosco, mas sempre me pareceu que aqueles que não levam a vida totalmente a sério têm as sementes cobertas por um solo generoso e bem adubado.”
Ernest Hemingway, Paris é uma festa

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O ímpeto de crescer e viver intensamente, Anaïs Nin

p15 vinho
” O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. 

Enfrentei meus sentimentos. 
A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa. 
Mas não quero viver comigo mesma. 
Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. 
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. 
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas. 
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. 
Eu estava esperando. 
Está é a hora da expansão, do viver verdadeiro. 
Todo o resto foi uma preparação. 
A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções. 
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar.”

Anaïs Nin

Filosofando com Francis Mallmann

francis mallmann
“Arte é um pensamento intelectual, e comida e vinho têm mais a ver com os sentidos e a partilha. 
Comida e vinho fazem-nos mais aguçados, espirituosos. 
Só aí podem estimular nossos pensamentos e melhorar nossa comunhão com colegas, amigos, amantes. 
Certamente a cozinha pode ser intelectual, mas deveria sê-lo de modo mais silencioso e –atrevo-me a dizer – humilde.”

Francis Mallmann

O dia que Galeano visitou Neruda

neruda

Fui a Isla Negra, à casa que foi, que é, de Pablo Neruda.

Era proibido entrar. Uma cerca de madeira rodeava a casa. Lá as pessoas tinham gravado seus recados para o poeta. Não tinham deixado nenhum pedacinho de madeira descoberta. Todos falavam com ele como se estivesse vivo. Com lápis ou pontas de pregos, cada um tinha encontrado sua maneira de dizer-lhe: obrigado.

Eu também encontrei, sem palavras, a minha maneira. E entrei sem entrar. E em silêncio ficamos conversando vinhos, o poeta e eu, caladamente falando de mares e amares e de alguma poção infalível contra a calvície. Compartilhamos camarões ao pil-pil e uma prodigiosa torta de jaibas e outras dessas maravilhas que alegram a alma e a pança, que são, como ele sabe muito bem, dois nomes para a mesma coisa.

Várias vezes erguemos taças de bom vinho, e um vento salgado golpeava nossas caras, e tudo foi uma cerimônia de maldição da ditadura, aquela lança negra cravada em seu torço, aquela puta dor enorme, e foi também uma cerimônia de celebração da vida, bela e efêmera como os altares de flores e os amores passageiros.

(Trecho de O livro dos abraços, de Eduardo Galeano)

A Origem do Mundo, Eduardo Galeano

Quadro de vinho

A origem do mundo

A guerra civil da Espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão.
Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. Contou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso, não entendia.
— Mas papai — disse Josep, chorando — se Deus não existe, quem fez o mundo?
— Bobo — disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando —. Bobo.
Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.